sexta-feira, 29 de abril de 2011

Um rosto na estante da sala,
um retrato à espreita de tudo em derredor.
Mas, a quanto tempo tudo aquilo,
Os livros, os porta lembranças, as traças e os marcadores de livro?
Talvez fossem mais olhos do que aquele da foto, que viram o já passado das lembranças,
Os sentimentos mal curtidos, as palavras em construções fonéticas engavetadas em falas de silêncio.
Talvez Ela atirasse mais conceitos nas horas políticas das discussões diárias, em assembléias extraordinárias, em cotidianos enfadonhos e monótonos...  Talvez Ele, se cobrisse de suor correndo pelas ruas para espantar o medo de enfrentar-se.
Os dois, provavelmente, escolhessem o não, em detrimento de um sim precisamos conversar, não que estivessem em conflito sempre mas, o negar-se mal entendidos um em relação ao outro, criava um musgo denso que se alimentava da umidade surda em que se metiam tentando não dizer-se.

Jornais espalhados por toda a casa,
Livros amarrotados no armário e, outros por passar, empilhados junto às roupas semi lavadas.

No que sobrou do esqueleto de teorias sobre o não fazer nas horas mal dormidas, escolhera tomar café, escrever e fumar um cigarro, Ele, pois, Ela, já trabalhava em outros estados de sono.

Na cozinha, tudo limpo, os pratos e talheres agora sem manchas e vestígios das deliciosas tortas que, faziam quando ficavam a debater que nota entrava e quais seriam guardadas para a próxima Música, pois nenhum som era ali visto como sem lugar. O que não servia em um momento era material para outro.

Nas noites de chuva, Ela tocava flauta, buscando esquecer-se dos ensaios exaustivos e, algumas vezes frios da orquestra, Ele sentava em silêncio e escutava-a, apenas. Era uma hora em que tudo parava, ganhava uma vida sem as formas que conheciam, transcendendo as incongruências deles e, do mundo. Música era tudo o que ali se sentia, nada mais, a Música era no que acreditavam, o que bastava para que existissem.

Gustavo felix

sábado, 23 de abril de 2011

Reverso


Roda o tempo.
Passa a luz.
Chega a vida,
Volta a dor.

Passa o olhar,
Brilha o peito.
Chora a chaga,
Abre a treva!

Ri a alma, 
Encolhe o tempo.
Estica a flor.
Canta a Boca!

Apaga a fala.
Some o nada.
Salva o choro.
Afunda o som!

Tira a carne.
Passa a entranha,
Sangra tudo.
Copia o espinho!

Lembra o amor.
Mata a dor.
Esquece o nada,
Busca o tempo! 


Glinka e Gustavo D.
***

Algumas palavras

Começando uma nova etapa da escrita, pensei em editar e fomentar um espaço que divulgasse alguns escritos já publicados, sendo estes impressos em um livro que em 2009 lançamos, Eu, Glinka Stransky e Jackson Abacatu, com o título de Companheiros. Porém, observando que seria mais proveitoso trazer à este espaço não apenas o já publicado mas, ideias e escritas em constante ebulição, apresento este "Verso, reverso e inverso", como um veículo que entre os que aqui se apresentam seja firmado um compromisso com o cuidado e fomento de uma escrita que construa, discuta e crie novas possibilidades de leituras e leitores.